Resolvi contar esta história em forma de crônica. Até porque ela já era uma crônica antes mesmo de se transformar neste amontoado de letras que seguem, pois aconteceu de verdade.
Já faz alguns anos, mas nenhum amigo da ex-estudante de Jornalismo, afoita para lançar-se à profissão, esquece da cena.
Estagiária em uma rádio de uma cidade de médio porte, na vizinhança de Ribeirão Preto, Ariana (o nome é uma referência ao nome real da personagem) jamais saía para a rua sem um gravador no bolso, na bolsa, na mão, no carro. “É para algum furo de reportagem”, dizia sempre.
Naquele final de semana, aproveitou a viagem da família, chamou amigas, assumiu o volante do carro do patriarca e rumou-se para uma tradicional festa popular numa cidade a poucos quilômetros da sua. O gravador, eternamente companheiro.
Na estrada, um movimento estranho. Luzes, trânsito lento. A noite já havia caído. Muitas viaturas da Polícia Militar. Talvez pelo intenso movimento de veículos para a festa na cidade vizinha – festa, aliás, que consegue reunir milhares de pessoas de todo o país, além dos estrangeiros, com grande cobertura da imprensa nacional –, o policiamento ostensivo era imprescindível.
A estudante Ariana nem de longe hesitaria em parar para ver se teria, ali, o furo de reportagem que ela tanto perseguia. Nem adiantou as amigas – afoitas mesmo para chegarem à festa – protestarem, insistirem, alertarem para o perigo do movimento. Argumento algum resolveu ali, nem resolveria. Afinal, com aquela quantidade de viaturas policiais, sirenes, trânsito quase parado e grande chance – ao menos na cabeça da estudante – de a imprensa chegar bem atrasada. Afinal, como iriam descobrir o fato tão rapidamente? Era o furo!
Ariana fala rapidinho, ri muito, tudo para ela fica engraçado. Mas ali, a coisa era séria. Assumiu o espírito jornalístico. Aquele que todo jornalista que passou pelos bancos da faculdade conhece bem. Todo estudante de Jornalismo um dia achou que poderia mudar o mundo. Bem, e para isso a primeira regra é não perder a notícia quando ela aparece. E mesmo quando ela não aparece!
Estacionou o carro na estrada, desceu afoita. Chegou perto do tumulto. O desafio seria passar pelo cerco policial. E os militares não estavam mesmo nem um pouco preocupados com o furo de reportagem de Ariana.
Mas ela não poderia se intimidar. Aliás, isso não fazia parte do perfil dela. “Preciso entrar!”, insistia. “Preciso cobrir a notícia!”. Não conseguiu sensibilizar os policiais. Mas, desistir? Jamais!
“Eu sou parente da vítima!”, insistia ininterruptamente com todos. Até que um policial se sensibilizou. “Ah, você é parente?”, olhou assustado o PM. Preocupado, o policial logo foi afastando os colegas, levando Ariana pelo braço até o centro da tragédia. E foi avisando os colegas: “É parente da vítima, precisa reconhecer”.
Ariana nunca imaginaria como seria seu primeiro furo de reportagem. Os PMs ficaram esperando o reconhecimento da vítima. Quando ela chega perto, a vítima era um cavalo, que tinha acabado de morrer atropelado. Um policial ainda teve o bom humor de se certificar: “É seu parente mesmo?”. Na faculdade, Ariana ficou conhecida, como é até hoje por alguns amigos, como a “Parente da Vítima”.
Blanche Amancio Silva é assessora de imprensa, jornalista profissional, graduada em Letras, pós-graduada em História, Cultura e Sociedade, sócia da Texto & Cia Comunicação, em Ribeirão Preto.
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