É um foco de grande reflexão considerar a cultura como espaço de constituição, e de possível orientação, dos seres humanos - espaço de aquisição simbólica.
A tarefa de refletir sobre as dificuldades de se criar um espaço entre indivíduo e sociedade, discorrer sobre a ética dentro de um espaço mental individual, marcado pelo mundo simbólico individual e mundo simbólico social é bastante difícil; Farei um recorte utilizando um exemplo de uma pesquisa realizada por Vanistendael(1995) que discorre sobre uma certa forma de resistência, a resiliência- termo da Física, referente à resistência de materiais, que põe em cheque a forca dos códigos vigentes em si, ou seja, de uma estrutura.
Nessa pesquisa, feita com jovens do Harlem, em Nova York, é indicada a forte resistência e criatividade por parte desses jovens, pois, mesmo vivendo em um ambiente bastante adverso, propicio aos “maus encontros”, conseguem compor um tipo de vida aprazível.
A pesquisa examinou as causas dessa resistência no ambiente social, e constatou que esses jovens do Harlem, tal como outros, também, viviam em famílias miseráveis: lares desregrados, pais alcoólatras, privações, etc... Descobriu-se, entretanto, que esses jovens tinham características muito próprias, como: primeiras, satisfaziam-se (alegravam-se) com pequenos “ganhos” que poderiam ser uma forma de resistência; segunda, eram ligados a um veio de religiosidade; terceira, tinham um certo humor diante da tragédia, de modo a supera-la. Diríamos que, de fato, para lidar com dificuldades, exige-se humor e criatividade. A quarta característica desses jovens é de fazerem parte de associações, terem seus projetos e trabalharem para projetos futuros. A partir dessas experiências desenvolveram outro modo de ver a realidade, usaram sua capacidade e de simbolizar e de serem criativos.
Desses exemplos fica-nos a observação de que cada pessoa tem uma mente própria com uma estrutura psíquica singular, a indivíduos, no entanto que consegue ser sujeitos na medida que resistem, driblam os códigos e outros que se submetem, mesmo que o ambiente seja o mesmo – aquele âmbito que leva “maus encontros”, com Instituições familiares injustas, como no caso da pesquisa do Harlem - e grupos de jovens que conseguem reverter suas experiências para “bons encontros”. Observa-se que a força mental que move todos os sujeitos permite que alguns consigam construir sua cidadania interna. E o que dignifica a existência humana do Harlem, é que conseguiram – alcançar algum poder para si próprio, como inventaram a própria vida e a vida de seu grupo.
Munira Mustafá Bazzi Akrouche
Psicóloga